Quando qualquer um - seja aonde for - estender a mão pedindo ajuda...
Quero que a mão de A. A. esteja sempre ali.
E por isto eu sou responsável.

Dr. Harry M. Tiebout

O primeiro psiquiatra a reconhecer o trabalho de Alcoólicos Anônimos e a usar os princípios de A.A. em sua prática profissional foi o Dr. Harry Tiebout.

Desde sua primeira exposição para nossa Irmandade, em 1939, o Dr. Harry continuou a recomendar A.A. para a classe psiquiátrica.

Junto com os Drs. Kirby Collier, Foster Kennedy, A. Wiese Hammer, Dudley Saul e outros, o Dr. Tiebout acelerou e aprofundou a aceitação mundial de A.A. entre os homens da medicina.

Mecanismo Terapêutico de Alcoólicos Anônimos.

Alcoólicos Anônimos é o nome que se aplica a um grupo de ex alcoólicos que, através de um programa terapêutico que inclui um definido elemento religioso, tem lutado com o alcoolismo com muito sucesso. O grupo origina-se do esforço de um homem - o Sr. "X" - que em 1934 encontrou a resposta para seu problema de bebida numa experiência religiosa pessoal. Ele foi capaz de traduzir essa experiência em termos que foram compreendidos pelos outros. Desde então muitos alcoólicos têm alcançado a sobriedade utilizando seu processo. O trabalho de Alcoólicos Anônimos tem um triplo aspecto. Primeiro, o grupo tem reuniões semanais, onde as experiências são relatadas e os problemas discutidos. Segundo, recomenda-se a todos que leiam o livro “Alcoólicos Anônimos”, que contém os princípios básicos, a fim de se chegar a compreender o programa. Terceiro, os membros trabalham com prováveis membros que estão fazendo seu primeiro contato com o grupo. Ajudar os outros é uma via de mão dupla, uma vez que isso não somente dá assistência ao principiante, em seus primei-ros esforços, como também ajuda o membro mais antigo, que dá de seus esforços algo que é essencial para sua sobriedade contínua.

As estatísticas do escritório da organização, em New York, dizem o seguinte:

5 recuperados no final do primeiro ano.

15 recuperados no final do segundo ano.

40 recuperados no final do terceiro ano.

100 recuperados no final do quarto ano.

400 recuperados no final do quinto ano.

2.000 recuperados no final do sexto ano.

8.000 recuperados no final do sétimo ano.

Alcoólicos Anônimos reivindica uma taxa de recuperação de 75 por cento daqueles que realmente tentam seus métodos. Essa cifra, unida a seu crescimento rápido, impõe respeito e exige explicação.

Embora totalmente consciente do valor do grupo, da irmandade, da ajuda dada a cada membro por seus esforços para ajudar os novos e do clima geral de esperança e encorajamento que emana de qualquer pessoa que foi tratada com sucesso, vejo que essas pessoas dependem de uma força terapêutica central que é a religião - uma verdade que espero que fique clara no final deste artigo, e uma conscientização que se desenvolveu através de muitas entrevistas com o Sr. "X".

Meu primeiro contato com o grupo veio por meio de uma paciente de trinta e quatro anos, que tinha estado sob meus cuidados no Sanatório Blythewood durante alguns meses. Ela tinha sido uma alcoólica crônica por muitos anos, apesar de sua inteligência, posição familiar e sucessos anteriores, tinha praticamente chegado à sarjeta, depois de uma perda total de sua fortuna que a tinha deixado sem um centavo. Nenhum outro paciente quis tanto ficar bem ou cooperou com a melhor boa vontade no programa de tratamento do que ela, mas os resultados eram muito insatisfatórios. Finalmente, ficou claro que ela possuía uma estrutura de caráter que, a despeito de seus melhores esforços e dos meus, persistia inabalável e era claramente responsável pela continuação de sua embriaguez. Certo dia chegou às minhas mãos uma cópia mimeografada do livro Alcoólicos Anônimos. Eu a li e descobri que continha uma des-crição muito precisa da natureza do problema que eu tinha visto em minha paciente.

Com intenção de fazê-la vibrar um pouquinho, entreguei-lhe o livro e pedi que o lesse. Para minha surpresa, ela ficou tão impressionada que se preparou para ir a uma reunião de Alcoólicos Anônimos e logo veio a ser um membro ativo e bem sucedido do grupo. Ainda mais surpreendente foi a descoberta que, com o processo de assimilação desse programa, sua estrutura de caráter, que estava bloqueando qualquer ajuda, desapareceu e foi substituída por uma outra que permitiu a essa paciente ficar sem beber. Alguma coisa tinha acontecido debaixo de meu nariz, da qual eu não poderia ter dúvida e que não poderia ser explicado como mera coincidência.  Fazia  a mim mesmo esta pergunta: O que aconteceu? Minha resposta é que a paciente tinha tido uma experiência espiritual ou religiosa. Portanto, a resposta  não parecia muito esclarecedora, e não demorou muito para que eu começasse a perceber o verdadeiro significado dela.

Antes de tentar explicar como se desenvolveu a compreensão do significado do fator religioso, é necessário discutir a estrutura do caráter que tinha desaparecido. Apesar de existir muitas informações contrárias, há um crescente reconhecimento de certas características comuns que estão normalmente nos alcoólicos, com exceção daqueles que têm latente uma boa condição espiritual. É uma característica do chamado alcoólico típico ser egocêntrico e narcisista, ser dominado pelos sentimentos de onipotência e ter intenção de manter a todo custo sua integridade interior. Embora essas características sejam encontradas em outros desajustamentos, elas aparecem em sua forma relativamente pura em todos os alcoólicos. Num cuidadoso estudo de uma série de casos, Sillman recentemente informou que ele sentia que poderia discernir os perfis de uma estrutura de caráter comum entre os bebedores problema, e que os melhores termos que ele poderia encontrar para o grupo de características apontadas eram individualidade desafiante" e "grandiosidade". Em minha opinião, essas palavras foram muito bem escolhidas. Interiormente o alcoólico não aceita ser controlado pelo homem ou por Deus. Ele, o alcoólico, é e precisa ser o dono de seu destino. Lutará até o fim para preservar essa posição.

Sabendo então da presença mais ou menos constante desses defeitos de caráter, é fácil ver como a pessoa que os possui tem dificuldade para aceitar Deus e a religião. A religião, exigindo que o indivíduo reconheça a presença de um Deus constitui um desafio para a verdadeira natureza do alcoólico. Mas por verdadeiramente aceitar a presença outro lado, e esse ponto é básico em minha palestra, se o alcoólico pode de um Poder Superior, ele, com esse simples passo, modifica pelo menos temporária e possivelmente de forma permanente sua mais profunda estrutura interior e quando faz isso sem ressentimento ou esfor-ço, então já não é mais um alcoólico típico. E a coisa estranha é que se o alcoólico pode manter essa sensação interior de aceitação, pode e permanecerá sóbrio para o resto de sua vida.

Para seus amigos e familiares, ele aceitou a religião! Para os psiquiatras, ele aceitou uma forma de auto hipnose ou o que vocês preferirem. Seja o que for que tenha ocorrido no interior do alcoólico, ele pode ficar sem beber. Essa é a argumentação de Alcoólicos Anônimos, e acredito que ela é baseada em fatos.

Voltemos à minha paciente para descrevê-la depois de sua experiência em Alcoólicos Anônimos. Em seu estado inicial, ela estava exatamente igual à descrição já dada da estrutura de caráter do alcoólico. Depois que Alcoólicos Anônimos começou a atuar, mudanças em sua personalidade tornaram-se evidentes. A agressão começou a diminuir consideravelmente, desapareceu a sensação de estar em desavença com o mundo, e com isso se desvaneceu a tendência de suspeitar dos motivos e atitudes dos outros. Uma sensação de paz e tranqüilidade diminuiu a tensão interior; as linhas de seu rosto ficaram mais suaves e ela se tornou mais tolerante e mais gentil. Aquele difícil e amargo íntimo estava sendo alterado, alterado o suficiente para levar a sobriedade da paciente a um período de cinco anos.

Qual foi o tipo de experiência que mexeu com essa paciente, quando ela ingressou em Alcoólicos Anônimos? A resposta é que algum tipo de crença ou força espiritual despertou nela. O Sr. "X" afirma que o êxito do grupo, com qualquer alcoólico, depende do grau alcançado pelo indivíduo numa conversão ou despertar espiritual. A própria experiência dele foi do tipo impetuoso e catastrófico que o tirou de seu desespero e o levou ao auge do êxtase e da felicidade, onde permaneceu durante algumas horas. Esse estado foi então se-guido de uma sensação de paz, serenidade e convicção profunda de que ele estava livre da escravidão da bebida alcoólica. Ele afirma que aproximadamente dez por cento ingressam em Alcoólicos Anônimos, baseando-se numa experiência como essa. Os restantes noventa por cento que ficam sem beber alcançam os mesmos resultados, ao desenvolver lenta e muito mais gradualmente o lado espiritual de sua natureza, seguindo os vários passos do programa já descritos. Segundo a experiência de Alcoólicos Anônirnos, a velocidade com que o despertar espiritual ocorre não depende da profundidade da aceitação nem do tempo de sobriedade. Contudo, a entrega religiosa, ainda que pequena no princípio, inicia o processo; O programa ajuda a levá-lo a uma conclusão bem sucedida.

O que é então um despertar espiritual?

Novamente a experiência pessoal do Sr. "X" é informativa. Homem de energia, dinamismo e grande capacidade, aos trinta anos, ele se encontrou completamente atolado na bebida. Pelo menos durante cinco anos lutou com o processo de decadência em que estava indo sem obter sucesso. Duas semanas antes de sua última permanência no hospital, recebeu a visita de um antigo amigo alcoólico que tinha alcançado a sobriedade através do Buchmanismo (movimento religioso que prega a volta ao cristianismo primitivo-nota do tradutor). O Sr. "X" tentou sem sucesso aproveitar-se dos ensinamentos de seu amigo e finalmente decidiu que ficaria sóbrio, internando-se num conhecido lugar de desintoxicação onde ele poderia clarear sua mente da bebida alcoólica e fazer experiência com  idéias de seu amigo e com as suas, pelo método livre do Sr. "X" de afastar-se do álcool. Ele estava desesperado, deprimido, sem ânimo para lutar. Estava disposto a tentar qualquer coisa, porque sabia que a alternativa que o esperava era um hospital estadual e uma vida de insanidade permanente. Na noite de seu primeiro dia de internação, recebeu novamente a visita de seu a-migo, que mais uma vez lhe explicou os princípios que lhe tinham devolvido a saúde. Depois que seu amigo se retirou, o Sr. "X" entrou numa depressão mais profunda ainda, que ele mesmo descreve como uma "profunda sensação de melancolia e completa desesperança". De repente, nesse pior estado de espírito, ele suplicou em voz alta: "Se existe Deus, que Ele se manifeste agora." E com esse apelo começou sua experiência religiosa. Ele salienta, e acredito verdadeiramente, que só quando se tomou totalmente humilde é que pôde voltar-se para Deus, a fim de buscar a ajuda que estava ali.

Em outras palavras, à luz da própria experiência do Sr. "X", um despertar espiritual ou religioso é o ato de deixar de confiar na própria onipotência. A individualidade desafiante já não continua a desafiar, mas aceita a ajuda, a orientação e o controle que vêm de fora. E quando o indivíduo abandona seus sentimentos vingativos e agressivos, em relação a ele mesmo e à vida, ele se encontra envolvido por sentimentos fortemente positivos, tais como o amor, a amizade, a tranqüilidade e a satisfação, cujo estado é a antítese exata da antiga intranqüilidade e irritabilidade. E o fato significativo é que com esse novo estado de espírito, o indivíduo já não se sente "impelido a beber".

Um entendimento maior do fenômeno da mudança espiritual veio de um outro paciente, cujo caso quero agora citar. Ele é um homem de uns quarenta anos. De uma família rica e o mais jovem dos irmãos; era o filho predileto de uma mãe neurótica e hipocondríaca. Começou a beber logo na adolescência. Quase imediatamente aprendeu a contar com a bebida para ajudá-lo a enfrentar as situações sociais, e com o passar dos anos, essa dependência tomou-se mais pronunciada. Finalmente, depois de uma prolongada bebedeira, ele foi internado no Sanatório Blythewood.

Provou que era um paciente muito responsável, disposto a reconhecer sua tendência alcoólica, e rapidamente se tomou interessado em Alcoólicos Anônimos. Depois de ficar no sanatório durante um mês, ele se convenceu de que podia controlar o problema. Contudo, depois de pouco tempo, começou a bebericar novamente e quatro meses mais tarde voltou ao sanatório, depois de algumas semanas de bebedeira ininterrupta. Novamente se pôs à disposição para entrevistas, mas agora estava claro que havia uma verdadeira batalha à frente e que era exatamente a mesma batalha enfrentada anteriormente, na primeira conversa com o paciente. Os defeitos, já descritos, apresentavam-se como barreiras insuperáveis para a terapia.

Durante as semanas que estivemos discutindo essas dificuldades, o paciente começou novamente a beber uma vez ou outra e finalmente entrou numa bebedeira que só terminou quando o levaram de volta ao Sanatório Blythewood.

Como acontece com todos os alcoólicos quando param de beber, ele estava cheio de remorsos, sentimentos de culpa e uma grande sensação de humildade. A personalidade desafiante foi golpeada pelos excessos de sua própria conduta e, nesse estado, estava inteiramente seguro de que nunca mais tomaria um trago. Todavia, no terceiro dia de sua recuperação, ele me pediu, duran-te uma entrevista, que gostaria que eu fizesse algo a respeito disso, e quando lhe perguntei a que "isso" se referia, replicou: " Minha antiga sensação estava voltando; estou com vergonha de vocês e de tudo isso que aconteceu." A indiferença em relação a seu problema, a agressiva segurança, a completa carência de qualquer verdadeiro sentimento de humildade, sentimento de culpa e todos os defeitos de caráter, que ele tinha, chegaram a identificar-se com a disposição de espírito que o levava a beber; estavam voltando e impedindo a entrada dos sentimentos, dos pensamentos, quase as mesmas sensações que ele tinha quando saía de suas bebedeiras. Ele sabia que se esses sentimentos voltassem, iriam apoderar-se dele mais cedo ou mais tarde, e ele voltaria a beber. Compreendeu que de alguma maneira precisaria agarrar-se às atitudes que tinha, quando se encontrasse desintoxicado.

No dia seguinte começou sua entrevista com esta afirmação: "Doutor, eu a tenho." Daí contou que tinha tido uma experiência na noite anterior. Denominou essa experiência, na falta de um melhor termo, de "um despertar psicológico". O que aconteceu foi um raio repentino de entendimento, a respeito de si mesmo como pessoa. Isso ocorreu por volta das vinte e três horas, e quando se deitou, ficou acordado até às quatro horas da madrugada, aplicando seus novos discernimentos e compreensão ao conhecimento de si mesmo.

Não é fácil reconstruir os acontecimentos desse período de cinco horas, ainda que aqueles acontecimentos constituíssem uma experiência importante na vida desse paciente que teve uma percepção básica de si mesmo como alcoólico. Além do mais, pela primeira vez, ele pôde ver a si mesmo, como sempre tinha sido e também pôde perceber que tipo de pessoa precisaria vir a ser, se quisesse permanecer sóbrio. Sem ser inteirado disso, na época, tinha transferido seu ponto de vista totalmente egocêntrico e subjetivo a uma compreensão objetiva e madura de si mesmo e de sua relação com a vida.

Revendo o passado, claro que o paciente ficou a par de seu egocentrismo. Pela primeira vez, foi capaz de penetrar em suas racionalizações e reações de defesa e ver que ele sempre havia se colocado em primeiro lugar. Para falar a verdade, ele não se dava conta que existiam outras almas, exceto quando o afetavam de alguma forma. Também não tinha consciência de que essas almas tinham existências separadas, parecidas, ainda que diferentes da sua, e isso nunca tinha se apresentado com um aspecto de realidade. Agora, ele já não se sentia o ser onipotente que enxergava o mundo somente em relação a si mesmo.

Em vez disso, ele pôde ver-se em relação ao mundo e pôde compreender que era somente uma pequena fração de um universo povoado por muitos outros indivíduos. Pôde compartilhar a vida com os outros. Já não tinha a necessidade de dominar e de lutar para manter essa dominação. Podia relaxar e lidar mais facilmente com as coisas.

Sua nova orientação pode melhor ser descrita nas próprias palavras do paciente como ele as colocou:

"Porque, doutor? você sabe que eu tenho sido uma mentira em toda a minha vida, e nunca soube disso. Eu costumava pensar que estava interessado nas pessoas, mas isso não era verdade. Eu não estava interessado em minha mãe que estava doente, como pessoa. Não compreendia que ela, como pessoa, poderia estar sofrendo; eu somente pensava o que me aconteceria, quando ela morresse. As pessoas costumavam me apontar como um filho exemplar, e eu acreditava nisso. Mas não era nada disso. Eu estava simplesmente ansioso para tê-la a meu lado, porque ela me fazia sentir melhor. Ela nunca me criticava e sempre me fazia sentir que tudo o que fizesse estava bem."

Novos conhecimentos iluminaram seus relacionamentos anteriores com as pessoas. Com respeito a isso, ele comentou:

"Você sabe, estou começando a me sentir mais perto das pessoas. Posso pensar nelasalgumas vezes. E eu me sinto mais à vontade com elas. Talvez isso seja porque acredito que elas não estão contra mim, desde que eu não sinta que estou contra elas. Agora acredito que talvez elas possam gostar realmente de mim."

Poderiam ser citadas muitas outras frases a respeito de si mesmo e de sua relação com o mundo, mas apenas acrescentariam mais provas de que a maneira de pensar desse paciente, pela primeira vez em sua vida, tinha se tomado verdadeiramente objetiva. Contudo, essa mudança para a objetividade é apenas a metade da história. Associada à mudança, houve uma alteração igualmente surpreendente no tocante aos sentimentos. Com palavras que me fizeram recordar as do Sr. "X", em sua experiência espiritual, o paciente descreveu suas novas atitudes:

"Eu me sinto bem, mas diferente de quando bebia. É muito diferente; sinto-me calmo, sem ansiedade e querendo vida ativa. Estou muito contente de estar assim e não acho que vou me preocupar demais. Consigo relaxar, apesar de me sentir mais capacitado para enfrentar a vida, agora, do que antes."

Ele então continuou: "Tenho uma idéia diferente a respeito de Deus. Não tenho idéia de Alguém aqui manejando as coisas, agora que não as quero manejar por mim mesmo. Na realidade, estou contente de poder sentir que existe um Ser Supremo que pode fazer com que as coisas saiam bem. Suponho que talvez isso seja algo como o sentimento espiritual que falam. Seja o que for, tenho esperança de que continue, porque nunca me senti tão em paz, em toda a minha vida."

Com essa afirmação, o paciente manifesta uma atitude diferente em relação a Deus, e ele mostra também que ficou a par de que à medida que ele usa o esforço para manter sua individualidade, consegue relaxar e gozar a vida em calma, até mesmo de maneira satisfatória. Tais sentimentos são, como ele mesmo disse, nitidamente espirituais na qualidade, e ele estava certo em sua apreciação, porque está sendo capaz de manter-se abstêmio há um ano, aproximadamente. A mudança para a objetividade e a mudança de sentimentos provaram ser aquilo de que ele precisava para permanecer sóbrio. Apesar de seu período relativamente curto de abstenção, o paciente sente que está muito mais firme. Antes, durante os períodos de abstenção, ele lutava constantemen-te com a bebida. Agora ele tem a verdadeira paz de espírito, porque sabe do que é preciso para manter-se pensando sobriamente.

Esse caso é citado porque descreve um indivíduo que teve uma rápida reorientação psicológica, cujo resultado foi uma vida totalmente nova, com diferente padrão e perspectivas de vida. Ainda que alguém possa questionar a permanência desse novo padrão, não se pode duvidar do fato de que a experiência em si mesma ocorreu.

De muito maior significado para o propósito deste artigo é o fato de que o paciente, como resultado de sua experiência, usou as mesmas palavras para descrever seus novos sentimentos como fez o Sr. "X", seguindo sua experiência religiosa, e como fez minha outra paciente depois que as atividades de Alcoólicos Anônimos começaram a ter sentido e a atuar nela. O Sr. "X" me informa que dos 10 por cento que têm um despertar rápido, alguns o alcançam com base numa verdadeira experiência religiosa e outros como resultado de um acontecimento psicológico, tal como aconteceu a meu paciente. Os outros 90 por cento atingem o mesmo resultado de maneira mais gradual, como atingiu aquela paciente já mencionada. Sem levar em consideração o caminho pelo qual esse resultado é alcançado, parece não haver dúvidas de que todos terminam com essa sensação de paz e segurança, que eles associam com o lado espiritual da vida. O componente de narcisismo do caráter é submerso, pelo menos por enquanto, e em seu lugar há uma pessoa muito mais objetiva e mais madura, que pode enfrentar as situações da vida, positiva e afirmativamente, sem fugir para o álcool. De acordo com o Sr. "X", todos os membros de Alcoólicos Anônimos, que conseguiram permanecer abstêmios, mais cedo ou mais tarde são submetidos à mesma mudança na personalidade. Eles precisam perder o permanente narcisismo, do contrário, o programa de Alcoólicos Anônimos funciona só por uns tempos.

Permitam-me fazer mais duas observações.

Primeira, existe uma grande diferença no mundo entre um sentimento religioso verdadeiro, emocional e a crença intelectual, vaga, tateante, cética, que passa por um sentimento religioso na mente de muitas pessoas. Independentemente de sua concepção desse Poder, a menos que o indivíduo obtenha no curso do tempo um sentido da realidade e a proximidade de um Poder Superior, sua natureza egocêntrica reafirmará com intensidade crescente, e a bebida entrará novamente em cena.

Segunda, a maioria dos indivíduos que finalmente alcança o necessário estado espiritual o faz unicamente seguindo o programa de Alcoólicos Anônimos e sem ainda experimentar, conscientemente, qualquer acesso repentino do sentimento espiritual. Em lugar disso, cresce lentamente, mas sem dúvida até um estado mental que, depois de ter permanecido durante algum tempo, pode de repente reconhecer que é muito diferente daquele que tinha anteriormente. Para sua surpresa, descobre que seus pontos de vista e perspectivas tiveram um colorido muito espiritual.

Portanto, o efeito central de Alcoólicos Anônimos é desenvolver na pessoa um estado espiritual que servirá como uma força direta para neutralizar os alimentos egocêntricos do caráter do alcoólico. O paciente permanecerá abstêmio, se e quando esse estado se integre completamente em novos padrões de comportamento. O Sr. "X" diz que esse processo de integração acontece dentro de alguns anos, e que se não houver mudanças perceptíveis na estrutura da personalidade, depois de seis meses, o lado espiritual provavelmente sucumbirá para um retomo do ego submerso do alcoólico. Em outras palavras, a menos que o ímpeto religioso de Alcoólicos Anônimos efetue uma mudança nos componentes mais profundos da personalidade, a influência do programa não é muito durável. É muito significativo que essa mudança, que é típica, aconteça sem a ajuda psiquiátrica; entretanto, como o Sr. "X" a descreve, tem características que nós, como psiquiatras, esperamos encontrar em nossos pacientes que estão melhorando. Em resumo, ele recapitula suas observações com as palavras: "O alcoólico precisa progredir em objetividade e maturidade, do contrário não permanecerá sóbrio."

Concluindo, acredito que o valor terapêutico do método de Alcoólicos Anônimos origina-se da utilização de uma força religiosa ou espiritual para atacar o narcisismo fundamental do alcoólico. Com o desarraigar desse componente, o indivíduo experimenta uma nova série de pensamentos e sentimentos que são de natureza positiva e que o impelem em direção ao crescimento e maturidade. Em outras palavras, esse grupo confia numa força emocional, que é a religião, para alcançar um resultado emocional, isto é, a destruição da série de emoções negativas e hostis, substituindo-as por uma série positiva, na qual o indivíduo não mais precise manter sua individualidade desafiante, mas que possa viver em paz e harmonia com seu mundo, compartilhando e participando livremente.

Um comentário final. A psiquiatria atual é especialmente cuidadosa nas curas puramente emocionais. A cura é considerada suspeita, até que qualquer mudança se ligue à mente e ao intelecto firmemente. A ênfase hoje está na análise que confia na mente para pôr às claras as causas do fracasso e para alcançar um estado de síntese, que é realmente uma condição emocional de libertação do conflito e da tensão. Supõe-se que à medida que os bloqueios das emoções são descobertos e libertados, por meio de análise, em seu lugar, aparecerão emoções positivas e sintéticas. É igualmente muito lógico, então, usar as emoções para mudá-las e depois, uma vez obtida a mudança, pôr a mente e o intelecto em ação para ancorarem o conjunto novo de emoções, dentro da estrutura da personalidade. Em certo sentido, isso é o que ocorre em Alcoólicos Anônimos; a religião atua sobre o narcisismo e o neutraliza para produzir uma sensação de síntese.

Referindo-se a sua própria experiência espiritual, o Sr. "X" a denomina muitas vezes de uma "grande experiência sintetizadora, na qual tudo pela primeira vez se tomou claro para mim. Foi como se uma grande nuvem se levantasse e tudo tivesse uma iluminação indescritível". Meu segundo paciente, ao referir-se a isso, disse: "Eu me sinto novo agora.

Sinto o conjunto, sem sair correndo em todas as direções ao mesmo tempo." E foi sob a luz de seu conjunto novo de emoções que o paciente pôde e respondeu mais satisfatoriamente a uma discussão, a respeito do que tinham sido suas dificuldades prévias e o que agora poderia fazer para evitar as complicações posteriores. Depois dessa experiência sintetizadora, ele foi pela primeira vez realmente capaz de fazer um trabalho decente e honesto de auto conhecimento.

A lição para os psiquiatras é clara, na minha opinião. Confesso que apesar de nos ocuparmos com problemas emocionais, nós, como um grupo que tende a ser intelectual, duvidamos muitíssimo das emoções. Ficamos constrangidos e um pouco envergonhados, quando somos forçados a usá-las, e sempre nos desculpamos com nossos colegas, se suspeitamos que eles têm razão para pensar que nossos métodos são muito emocionais.

Entretanto, outros menos presos à tradição vão em frente para conseguir resultados negados a nós. É sumamente importante para nós, cientistas presu-mivelmente com a mente aberta, observar sábia e longamente os resultados dos outros em nosso campo de trabalho. Podemos estar mais cegos do que pensamos.

 


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